A luz da Metafísica

“Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. Essa frase é de Ludwig Wittgenstein, figura fundamental da filosofia da linguagem. Wittgenstein, nessa citação, faz uma crítica à teologia e ao místico, afinal, para ele, a função da filosofia é de apenas elucidar os pensamentos, de modo lógico, por meio das proposições. Diante disso, não há proposições sobre Deus e suas adjacências (nem sobre ética).

Wittgenstein tem Kant como influência, uma vez que este afirmou que o conhecimento humano é incapaz de compreender assuntos sobre Deus, imortalidade da alma e liberdade, pois tais conhecimentos estão no mundo numenal e os indivíduos só conhecem o mundo fenomênico.

De modo sucinto, entende-se o porquê de, nos últimos dois séculos e meio, a Metafísica ter perdido seu espaço na filosofia e, consequentemente, na humanidade.

Além disso, a marginalização da Metafísica também é a causa do “desencantamento do mundo”, nos dizeres de Max Weber, no sentido de que o Ocidente perdeu, a partir do século XVI, a concepção de um mundo místico e mágico, devido às Revoluções Científica e Industrial, notadamente.

Hoje, tem-se um mundo tecnológico, científico, ultraconectado. Contudo, com pessoas depressivas e vazias. Ora, mas a Era das Luzes teve seu ápice há mais de dois séculos(!!!), onde está o planeta iluminado por pessoas iluminadas?

Está correta a Escola de Frankfurt de Adorno e Horkheimer, que criticou Kant e afirmou que o Esclarecimento não foi atingido pelos homens. Entretanto, a concordância não condiz com os frankfurtianos ipsis litteris, pois enquanto estes culpam o sistema capitalista pelo não alcance da luz, aqui se culpa a ausência da Metafísica como geradora da escuridão contemporânea.

Fato é que as pessoas buscam a luz apenas na matéria. Assim, Platão e sua famosa Alegoria da Caverna estão em descrédito. Todos sabem que o Mundo Inteligível é o mundo da verdade, onde existe a verdadeira luz. Ainda que Arístocles (Platão, para os mais íntimos) não tenha vinculado a luz a Deus (como Agostinho efetivamente fez), todos sabem que o Mundo Inteligível é o mundo pós-vida na Terra, a Metafísica. Logo, apenas no “para além da física” é possível atingir conhecimento da coisa-em-si, também denominado noesis (conhecimento pleno). Interessante que o ilustre filósofo Henrique Lima Vaz faz um vínculo entre noesis e intuição. Palavra muito pouco bem quista nos últimos séculos dentro da filosofia, já que de cunho muito abstrato (e… metafísico). Contudo, Sócrates – mestre de Platão – creditou boa parte de suas falas à intuição: quando perguntado de onde surgiam as ideias que faziam com que ele dissesse tão belamente, sua reposta ia na direção de que era intuitivo, como se um bom espírito soprasse tais ideias em seus ouvidos. O mesmo Sócrates, dessa forma, também defendia uma visão da Metafísica no centro de importância: “Ele que viveu como um verdadeiro filósofo tem razão de ter bom ânimo mesmo se está prestes a morrer, e que após a morte, ele pode esperar por receber o maior bem no outro mundo”, diz ele no livro platônico Fédon (ou da Alma).

O Iluminismo focou demais (talvez exclusivamente?) no que se tornou um intelectualismo tóxico. Bem que Rousseau já dizia que essa idolatria à cultura e ao conhecimento não necessariamente emanciparia os indivíduos. Até pensadores materialistas, como Nietzsche e Freud, chamaram a atenção para o falso domínio que o ser humano detém, mesmo sendo dotado de razão. Ambos admitem que o mundo é/está/estará sempre além do controle humano, mas de formas diferentes, claro. O primeiro por meio do niilismo (a vida não tem sentido) e do “amor-fati” (deve-se amar a vida com todos os seus imprevistos). O segundo ao demonstrar que a pessoa não tem sua essência no “ego”, mas sim no “id” (pulsão). Por isso, o “ego” é uma espécie de máscara que a pessoa veste durante quase toda a vida, pois seu verdadeiro eu (id) é censurado pelo “superego” (controle da cultura); ou seja, para Freud, o indivíduo não controla nem a si mesmo.

Ora, Hegel já dizia que, para haver uma evolução do espírito (consciência), é preciso ocorrer uma dialética baseada na suprassunção, isto é, a antítese não pode negar totalmente o momento anterior (tese). Nessa seara, quando – a partir do método científico de Francis Bacon – a humanidade caminha para a total negação da Metafísica, o resultado que se vê hoje é a escuridão na vida dos indivíduos. Valem muitos exemplos: a liquidez de Bauman, a exposição de Debord, a ação instrumental de Habermas; enfim, o pessimismo de Schopenhauer. Com isso, a evolução hegeliana está estagnada!

O século XX, com “a existência precede a essência” – da Fenomenologia de Husserl e do Existencialismo sartreano – literalmente jogou, lançou o homem ao mundo, sem quê nem porquê, fortalecendo o niilismo nietzscheano e a falta de um télos efetivo e sólido. Logicamente, num mundo sem Deus, como muito bem colocado por Dostoiévski, tudo é permitido; e quando há permissão para tudo, nada se obtém. É a regra dos extremos, não funciona.

O resultado é um mundo não de crise de âmbito financeiro, nem famélico, nem de violência; mas sim um mundo de crise moral, de crise do ser humano, que não possui nem mesmo autoconhecimento (neste ponto, o Oriente parece estar mais orientado, com o perdão do trocadilho).

Afinal, como entender o conceito de eudaimonia (felicidade,realização), quando se coloca o ter acima do ser? Ou, ainda mais importante, quando não se sabe o que significa o próprio ser? Sócrates colocava essa como a principal questão a ser respondida pelo homem e, pasmem, a resposta era: “sua alma”. Alguns séculos depois, Jesus Cristo consolidou vários conceitos dos filósofos clássicos, ao asseverar: “todos vós sois deuses”. Com isso, começa-se a entender o real conceito de finalidade aristotélica/tomasiana, de conseguir passar da potência para o ato, da noesis (intuição) para o eidos (Ideia). O objetivo não é meramente humano, demasiado humano. Vai além.

Enfim, é somente com a retomada da Metafísica como centro da vida do ser humano que este conseguirá se iluminar. O livre-arbítrio o levou para o cerne da Cidade dos Homens, amando a Mamom e todos os seus discípulos (fama, riqueza e poder), numa completa cegueira e escuridão. Mas é possível virar o jogo. Agindo cada vez mais com a verdadeira liberdade – “que se faça a Vossa vontade” – e, consequentemente, sendo Esclarecido pela luz da Metafísica.

Esse é o único caminho. A verdade. E a vida.

45866259_1363084663832147_4951008389229445120_n

Anúncios
Publicado em Espiritismo, Filosofia e Cotidiano | 2 Comentários

Sobre piadas, digital influencers e o embate entre conservar ou progredir

Um grupo de brasileiros fez um vídeo, na Rússia, em que entoava palavras de mau gosto (para dizer o mínimo) para uma russa que, não sabendo a língua portuguesa, fez coro ao grupo. A justificativa foi de que se tratava de uma brincadeira e que eles tinham bebido um pouco além da conta. Poucos dias depois, um rapaz, que também está na Rússia, e que é bem conhecido no YouTube, fez uma piada de mau gosto (também para dizer o mínimo) com um jogador francês. O cântico do grupo tinha cunho sexual e caracterizava uma ofensa ou mesmo uma espécie de invasão à mulher que estava com os brasileiros. Já a piada de mau gosto do “youtuber”, na verdade, trata-se de racismo.

As duas situações foram fortemente rechaçadas pela opinião pública, sob os argumentos de desrespeito com as mulheres e com os negros. Por outro lado, a minoria que defendeu as duas atitudes alegou que a tropa do “politicamente correto” quer destruir a diversão e a piada.

Diante desse cenário, tem-se atores novos, mas um tema que já se arrasta durante bons anos, que diz sobre o conflito entre uma suposta liberdade de expressão ilimitada (com fortes bases na tradição) versus limites de tolerância com relação ao que é dito (principalmente quando se tem como alvo o que é visto como “minoria”).

O argumento dos que defendem esses tipos de situações salienta que o mundo está chato com todo esse policiamento, e que hoje não haveria lugar para os comediantes do fim do século XX, como Ari Toledo ou mesmo programas como “Sai de baixo”. Que piada foi feita para rir e que faz parte. Que a geração passada sofreu esse tipo de piada e nem por isso ficou com “mimimi” e vitimização.

piada

Entretanto, parece que esses defensores ainda não perceberam a mudança pela qual o mundo (ou pelo menos o Ocidente) passa. Numa perspectiva progressista (hegeliana e não marxista e nem positivista), o mundo está em evolução e, com isso, não é porque algo era bem aceito pela população na década de 1990 que significa que deve ser bem aceito em 2018. Ora, nas décadas de 1960 e 1970, o ato de fumar era considerado charmoso, recomendado, intelectual e bonito; já hoje é considerado um ato nocivo à saúde e não recomendado.

“Ah, então as piadas serão extintas? Não se pode mais fazer piada?” Se o conceito de piada se refere unicamente em, para fazer uma pessoa rir, ofender alguém (ou um grupo), então, sim, esse tipo de piada precisa ser extinta. É só com esse tipo de pensamento mais radical que, aos poucos, as gerações anteriores irão entender que uma piada que ofende uma mulher ou um negro ou um homossexual não é um motivo para rir e debochar dessa pessoa.

O mundo se move e muita coisa nova parece ser superior à velha.

Contudo, para que esse progresso possa efetivamente ocorrer, é necessário que haja mais racionalidade na vida das pessoas, isto é, mais conhecimento, mais virtude e mais empatia. E isso, geralmente, é obtido por meio da busca por leituras edificantes e instrutivas (muitas delas até tradicionais, como Sêneca e Agostinho). Não obstante, o que se vê por aí não é bem isso, mas sim busca por referências e até mesmo exemplos a serem seguidos em pessoas conhecidas como “digital influencers”. São os famosos youtubers. Neste caso, certamente essa inovação não parece ser benéfica à população.

youtubers

Cocielo, youtuber

Em suma, é preciso saber lidar com a linha tênue entre o que conservar e o que inovar. O problema é que a humanidade parece ainda se agarrar em muita inovação inócua, ao mesmo tempo em que abre mão de algumas tradições profícuas; e vice-versa. Talvez o caminho seja virar essa chave.

progres x conserva

 

 

 

 

 

Publicado em Filosofia e Cotidiano | Marcado com , , , , , | 2 Comentários

O copo meio vazio

hp_01102015_Competitividade

A partir do século XIII, novos valores mudaram a concepção e a vida do ser humano. O Renascimento colocou o indivíduo num patamar acima, em comparação com a Idade Média, isto é, surgiu o Antropocentrismo no lugar do Teocentrismo.

Maquiavel foi um filósofo da época renascentista e ilustra muito bem essa mudança, por meio de seu conceito de virtú: por mais que a origem de tal palavra se vincule à virtude, o conceito do florentino não se adéqua aos conceitos dos filósofos da Grécia clássica e nem do cristianismo. Dessa forma, se antes o conceito de virtude, de algum modo, estava ligado a um Ser metafísico (o demiurgo ou primeiro motor na Antiguidade e o Deus cristão no Medievo), a virtu de Maquiavel diz respeito à qualidade do ser humano, à sua capacidade de criar novas oportunidades ou até mesmo de criar a sua própria sorte, baseada apenas em sua grande capacidade como ser racional que é.

Assim, Shakespeare disse: “Que obra-prima é o Homem!” e o Renascimento foi o pontapé inicial para o materialismo construir seu terreno. Já a Modernidade, com o método científico e o empirismo, somada à Contemporaneidade (em seu início, no século XIX), com Marx e sua filosofia da práxis, com Nietzsche e com o existencialismo, desenvolveram, amadureceram e colocaram no hall da fama o materialismo.

maquiavel-ensinou-como-governante-deveria-agir-quais-virtudes-deveria-ter-fim-se-manter-no-poder-aumentar-suas-conquistas-1314707388

Resultado: o ser humano do século XXI, racionalista e materialista, só reclama da vida. Em que pese seu potencial de transformar a natureza e a sociedade, parece nunca ter havido tantas pessoas depressivas quanto no ápice da evolução científica e tecnológica. O paradoxo que se vivencia é fruto do materialismo que colocou o indivíduo como senhor de si mesmo e que aflorou o solipsismo (egoísmo), seja no sentido liberal político e econômico (que não precisa de nenhuma coletividade), seja no sentido ateísta (que não precisa de nenhum Deus).

As pessoas preferem viver mais de acordo com a frase de Pascal, do século XVII, que disse que “todos se queixam, príncipes, súditos, nobres, plebeus, velhos, moços, ignorantes, sãos, doentes de todos os países, de todos os tempos, de todas as idades e de todas as condições”, e desconsideram Horace Mann que, no século XIX, foi contra a corrente: “lamentar a desgraça é apenas humano; minorá-la é divino”.

Diante disso, o desenvolvimento da concepção de conhecimento do Homem acerca do mundo levou, naturalmente, a ver o copo meio vazio e nunca meio cheio. E esse pessimismo (que muitos chamam de realismo) corrói – aos poucos – a rotina, a vida. Não obstante, a matéria muito longe ainda está de responder os anseios humanos e mesmo as verdades do mundo. Mas parece ser mais bonito e inteligente negar a metafísica. Em prol de se mostrar como mais forte, não importa a tristeza e o vazio.

Essa robinsonada travestida de verdade nua e crua não me pega. Talvez por isso eu seja taxado como otimista e idealista, quando na verdade me vejo apenas como realista, que enxerga um ser humano muito capaz de melhorar as coisas, quando sob a égide do Mais Alto. Afinal, complementando Shakespeare: “MEU DEUS, que obra-prima é o Homem!”

download

Publicado em Filosofia e Cotidiano | Marcado com , , , , | 1 Comentário

Contemporaneidade intranquila

A Grécia Antiga sempre buscou um modo de vida que visava felicidade, tranqüilidade, realização, desde a época dos mitos, com Homero e Hesíodo, passando pelos filósofos clássicos (Sócrates, Platão e Aristóteles), além dos sofistas. Por volta do século II a.C. – devido à invasão do Império Romano – surgiram as Escolas Helenistas, com o intuito de os gregos não perderem ainda mais sua identidade cultural. Cinismo, Estoicismo, Epicurismo e Ceticismo foram os quatro modos de vida que levariam à ataraxia (tranqüilidade da alma) tanto do indivíduo quanto da sociedade.

Mais de vinte séculos depois, contudo, o que se nota são indivíduos, comunidades e países perturbados. Mesmo com milhares de religiões, palestras motivacionais e livros de auto-ajuda, o ser humano vive ansioso, raivoso, temeroso e, consequentemente, desequilibrado. Será que não vale a pena buscar – novamente – um renascimento de alguns valores Antigos, notadamente os das Escolas Helenistas?

download

Primeiramente, é patente que o mundo atual se apega de maneira hiperbólica ao dinheiro e aos bens materiais. Diógenes, protagonista do Cinismo, dizia que a tranqüilidade só era passível de ser atingida se o individuo abrisse mão de toda a vida em sociedade, com suas regras, seus bens, seus prazeres, e vivesse de acordo com a natureza. Todavia, isso está muito distante do dia-a-dia urbano e tecnológico de muitos; não obstante, a filosofia cínica pode servir para contrabalançar o afã desmesurado pela matéria. Além disso, a humanidade parece ainda não saber lidar com as tragédias. Que infelizmente a vida possui mais dificuldades do que alegrias parece algo sólido. Entretanto, não se lida de forma adequada com essas vicissitudes (alternâncias). O homem busca controlar cada vez mais o mundo e suas ações, a fim de evitar os reveses, como se isso fosse possível. Mas o Estoicismo diz que o homem é um microcosmo diante do mundo (macrocosmo), e isso leva a fatalidades (ocorrências que fogem ao controle humano). Assim, deve-se buscar uma maior indiferença com relação aos prazeres e à dor. Nesse sentido, “aceita que doi menos” é um bom jargão estoico nos dias atuais, uma vez que isso pode levar a menos expectativas e mais tranqüilidade. Também há o Epicurismo, que diz que não se deve temer os deuses (pois eles estão em outras esferas), a dor (pois ou ela é passageira ou suportável) e nem a morte (pois quando o homem é, ela não é; e quando ela é, o homem não é). Isso certamente pode auxiliar os homens contemporâneos, que gostam muito de culpar essas três esferas por seus fracassos. Por fim, há o Ceticismo, que prega a tranqüilidade por meio da suspensão do juízo. Isso pode ser bem útil para aqueles que entram em brigas e ofensas para defender sua verdade absoluta na política, na religião, no futebol.

Tudo isso posto, não é muito complicado pensar como as Escolas Helenistas podem servir de remédio e até profilaxia para a doença do ser humano, que é, sobretudo, moral. O desequilíbrio da alma leva ao estresse no trânsito, no trabalho, no descanso, ou seja, nas relações humanas. Certamente, com mais equilíbrio no que diz respeito aos bens materiais (cinismo), às dificuldades e aos infortúnios (estoicisimo e epicurismo) e à vaidade e à arrogância (ceticismo), o homem contemporâneo será mais tranqüilo e feliz.

maxresdefault

Publicado em Filosofia e Cotidiano | Marcado com , , , , , , , | 1 Comentário

“Pós-verdade”

Todo ano, a universidade de Oxford, por meio da Oxford Dictionaries, elege uma palavra para a língua inglesa. Em 2016, a palavra escolhida foi “pós-verdade” (“post-truth”). O significado desse termo está relacionado a circunstâncias em que a opinião pública é mais facilmente moldada mediante apelos à emoção ou a crenças pessoais do que aos fatos objetivos.  Isso mostra que o debate político vivencia um período no qual a verdade tem cada vez menos importância.

Apesar do aumento da inserção da pauta política na agenda de cada vez mais e mais cidadãos devido ao avanço da informação – principalmente por meio da internet e suas redes sociais –, esta nem sempre chega ao destinatário de forma verídica. Hoje não se tem apenas grandes veículos de informações, como canais de televisão, jornais e revistas de circulação regional ou nacional; imprensas alternativas e opiniões as mais diversas sobre vários assuntos pululam no feed dos usuários de redes sociais. E, apesar de neófitos no “ramo jornalístico” (leia-se produtores/difusores de notícias e/ou opiniões) – sejam eles mais ou menos profissionais –, o sensacionalismo continua (infelizmente) como arma forte para a divulgação dos trabalhos. Some-se a isso o fanatismo religioso que tem se tornado as disputas políticas/ideológicas e pronto: aí está a “pós-verdade”.

Nesse sentido, a probabilidade em se alcançar um consenso – baseado no agir comunicativo de Habermas, em prol de um maior bem-estar da população, por meio da Razão Comunicativa – se torna pequeno, uma vez que o número de compartilhamentos sobre mentiras é tão grande (ou talvez até maior) do que o número de compartilhamentos de verdades. Nas últimas eleições norte-americanas, por exemplo, entre Trump e Hillary, as redes sociais foram chafurdadas com notícias sobre o apoio do Papa Francismo ao Trump, ao mesmo tempo em que se afirmava que Obama foi o criador do Estado Islâmico. No caso do Brasil, muito já foi dito sobre o Sérgio Moro ser filiado ao PSDB, ter parceria com os Estados Unidos, bem como já afirmaram com certeza absoluta de que o PT buscava transformar o Brasil numa Venezuela com o petismo-lulismo.

juergenhabermas

Dessa maneira, alimentados pelo que Habermas chama de ação estratégica (ou instrumental), os indivíduos pensam apenas na sua individualidade, todavia travestida de coletivismo, influenciando os outros por meio de bens, seduções ou até ameaças. O resultado disso tudo são falsos moralistas e falsos cidadãos, que se dizem preocupados com o bem-estar e com o consenso (ação comunicativa), mas fazem de tudo para convencer o outro de sua verdade (ação estratégica).

E qual o resultado disso? Simples. Quando os fatos são substituídos pelo sensacionalismo e pelo fanatismo, o irreal vence e vira realidade. Demagogos como Trump, Bolsonaro e Crivella já foram eleitos. E para 2018, além de Jair Bolsonaro como candidato, Roberto Justus confirma também pode disputar a Presidência. O fenômeno “pós-verdade” vem dando vida à mentiras tenebrosas.

images

Publicado em Filosofia e Cotidiano | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário

A estrutura das Revoluções Políticas

Thomas Kuhn foi um dos mais importantes filósofos da ciência. Norte-americano, escreveu uma das principais obras do século XX: A estrutura das revoluções científicas. Segundo o pensador estadunidense, a ciência foi construída e desenvolvida por meio de perspectivas padronizadas de tempos em tempos, ou seja, direcionada a um paradigma (também chamado de Ciência Normal, arquétipo para as comunidades científicas). Assim, o paradigma se aproxima da tradição científica que vigora em determinada época. Por óbvio, um paradigma não é absoluto, mas é a metodologia mais adequada para o cientista.

Entretanto, quando o sistema paradigmático não mais resolve uma série de anomalias, surge a crise do mesmo. Os métodos tradicionais vão se ruindo, aos poucos, até que aparece um novo paradigma. Como exemplos históricos, podem ser citados a passagem do sistema Ptolomaico para o Copérnico, bem como a passagem da física aristotélica para a newtoniana.

Thomas KuhnHarvard University, 1949

Thomas Kuhn

Analogamente, nota-se uma mudança de paradigma na Política Ocidental, na segunda década do século XXI.

Primeiramente, na região da América: a América Latina foi recheada de governos de viés mais à esquerda, após o fim das ditaduras militares que varreram a região na segunda metade do século passado. Entre o fim dos anos 90 e o início dos anos 2000, o lulismo no Brasil; o kirchnerismo na Argentina; o chavismo na Venezuela; Evo Morales na Bolívia. Todos eles impulsionaram o crescimento do Mercosul. Agora, no Brasil, Dilma (pupila de Lula) está afastada do cargo e seu partido vive num mar de denúncias de corrupção; na Argentina, Macri foi eleito o novo presidente com uma vertente política muito diferente dos Kirchner; na Venezuela, Maduro sofre uma crise sem precedentes, na qual a população não tem dinheiro para comprar sequer papel higiênico e há lutas pela queda do regime bolivarianista; e, na Bolívia, Morales perdeu o referendo em que postulava concorrer por mais uma reeleição. Tudo isso somado à crise econômica do Mercosul.

Depois, a surpreendente saída do Reino Unido da União Europeia. O bloco europeu foi fundado em 1992 e o euro passou a circular nos países-membros a partir de 1º de janeiro de 1999. Até a saída do Reino Unido, 28 países faziam parte do bloco econômico. Com argumentos de mais autonomia econômica (robustecidos pela crise da Grécia) e, também, devido aos atentados terroristas (Paris 2015) e questões imigratórias (milhares de refugiados entram em países europeus nos últimos anos), a maioria dos britânicos e irlandeses do norte votou pela saída da União Europeia.

Diante disso, não há dúvidas sobre uma crise política no Ocidente. O paradigma do Estado de bem-estar social atrelado a blocos econômicos parece ruir paulatina e constantemente. O problema é o cenário que se apresenta para sanar as várias anomalias: o rápido crescimento do ultraconservadorismo, com o bilionário Donald Trump, nos EUA, e Jair Bolsonaro, no Brasil. Todo cuidado é pouco.

índice

índice1

Publicado em Filosofia e Cotidiano | Marcado com , , , , , , , | 1 Comentário

Estupro: errado, como qualquer outra violência

No dia 23/05/2016, cerca de 30 homens estupraram uma garota de 17 anos de idade, no Rio de Janeiro. Infelizmente, estupro não é um crime incomum no planeta. No país tupiniquim, foram contabilizados 130 casos por dia, no ano de 2014. Esse número deve ser ainda maior, uma vez que muitas mulheres não denunciam o ilícito.

Ações criminosas são atitudes imorais e antiéticas, que ferem o indivíduo e a sociedade. Lamentavelmente, são comuns no Brasil. Immanuel Kant, um dos grandes filósofos da ética, afirma contundentemente que o homem deve agir de acordo com o Imperativo Categórico, que prevê: “age como se a máxima de sua ação devesse se tornar uma lei universal”. Nesse sentido, a ação deve ser boa, pois o bem tem um fim em si mesmo: “age de forma tal que use a humanidade, tanto na sua pessoa, como na pessoa de qualquer outro, sempre e ao mesmo tempo como fim e nunca simplesmente como meio”. Logo, nunca há situação específica que justifique uma ação equivocada. O certo é sempre o certo e o errado é sempre o errado. Sem exceção.

Na mesma seara, Jean-Paul Sartre, filósofo francês, diz que o homem é totalmente livre e, por isso, deve assumir a responsabilidade por todas as suas ações. Aquele que assim não o faz é acusado de agir de má-fé. Diante disso, de acordo com Kant e Sartre, não há justificativa para qualquer ação errônea. A pessoa que comete um ato ruim deve ser declarada culpada por isso. Ponto final.

índice.jpg

índice1

Não obstante, existe uma cultura contemporânea muito forte que contesta esses dois filósofos, chamada determinismo social, na qual defende o homem ser produto do meio. Dessa forma, uma pessoa que nasceu no meio de bandidos, vai virar bandido. Um homem que vive na sociedade machista, vai oprimir as mulheres. Há, então, uma espécie de isenção da culpa de quem comete um ato antiético, porque ele foi levado a agir de tal maneira, sem liberdade. É uma vítima do sistema.

O problema é que essa isenção não funciona para qualquer criminoso. Para com alguns, os membros da sociedade passam a mão na cabeça; para com outros, não. Ou seja, há pesos e medidas diferentes. Muitos justificam um roubo de um celular, com o argumento de que “é um absurdo alguém comprar um aparelho de 4 mil reais, enquanto tem gente passando fome”. Ora, mas a culpa não é única e exclusiva do assaltante? Não, é da desigualdade social, da falta de escola, do capitalismo malvado, da ostentação. Isso abre brecha para o mesmo tipo de argumento de quem defende o estupro: a culpa não é do estuprador, mas sim da roupa curta, da bebida alcoólica, das drogas, da mulher sozinha à noite.

Não há justificativa para o erro. Não há relativismo. É preto no branco. O assaltante e o estuprador são antiéticos e criminosos, e não vítimas do sistema. Entretanto, a filosofia do direito, bem como a hermenêutica da sociedade, no geral, são muito brandas para com aquele que erra. Kant é do século XVIII; Sartre, do XX. Não foram ouvidos. Hora de rever os conceitos de certo e errado.

images

Publicado em Filosofia e Cotidiano | Marcado com , , , , , , , , | 3 Comentários